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quarta-feira, 21 de março de 2012

Cinzas Coloridas

Fazendo as pazes com a solidão
Encontrei o não

Não quero gente intrometida
Não quero amizade falida
Não quero escolha arrependida


Quero que a estrela brilhe
E que a chuva molhe
Quero abraço apertado
E não quem faz corpo mole

Quero sol azul de bicicleta
Praia, bosque
Pra sair na rua

E quero dia chuvoso
Cinza de preguiça, cama e eu, nua
Pra ficar na minha
Junto com você, na sua

Quero focar pra distrair
E sorrir pra me alegrar
Quero férias
Pra de mãos dadas caminhar

Sair correndo
E num mergulho, cair no mar
Quero você na minha vida
E desse jeito poder te amar


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Amizade Dietética

Querido quase amigo: tu és um chato. De galochas. E com essa afirmação terminei uma amizade que nunca bem começou. Pra falar a verdade nunca acreditei em amizade entre ex-amantes. Ouvi de um professor que isso tem outro nome, e chama-se infidelidade emocional. “I call this emotional infidelity!”, gritava o sensato senhor com os punhos cerrados.

É meio por aí mesmo. E introduziu a afirmativa veemente perguntando em tom de resposta: “Você fez amor com essa pessoa! Dormiram e acordaram nus lado a lado e talvez tenham feito planos de vida eterna! Como é que agora vocês vão ser amigos!?”. Nessa insistência acabamos nos machucando ou enchendo o saco mesmo, porque a intimidade prévia abre prerrogativa pra a ex-figura se intrometer na sua vida sem limites.

Realmente, pra mim não dá.

O meu caso até que é diferente. A paixonite não evoluiu justamente porque o cara é um mala sem alça, e tempos depois foi tentada a tal da amizade falida. Olha, fica até parecendo pretensão minha e tenho a impressão que você pode pensar que me acho super legal. Não é bem isso. Eu apenas me considero uma não-chata. O sujeito é mesmo chato pra xuxu e quanto mais tenta parecer descolado, mais enjoado fica.

Cheio de cuidados pra não extrapolar, termina sempre extrapolando. Do tipo que escreve o que pensa e depois apaga pra não dar bobeira. Não assume nem que pode errar. Vaidoso como todo chato que se preza, não suporta ouvir crítica, nem disfarçada de piada. Tá sempre na nova onda alimentícia. Já foi vegetariano, vegan, raw vegan, macrobiótico, lactovegetariano, frugivorista, freegan e a lista não pára.

Competitivo ao extremo, entra em qualquer debate cheio de convicções. E por ser muito inteligente e talentoso acaba estourando o saco de qualquer cristão. Quando o romance havia começado ouvi de algumas pessoas que ele era um desmancha bolinhos e foi até apelidado de brócolis por um conhecido, mas ele está mais pra xuxu mesmo. Pois bem, hoje em dia não aguento xuxu nem com camarão.

Quem não está preparado pra ver a beleza diversa que o ser humano tem com seus erros e limitações não merece entrar na minha dieta.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Equação das invejas e dos pavões

No tipo dos pavões vamos inserir Júlio: moço-moreno, olhar de predador, sedução estilo metralhadora (um alvo e tiros pra tudo quanto é lado), esperteza desperdiçada em buscar frases soltas que agradem as moças, desempenho no trabalho abaixo da sua média (só para garantir o salário que paga a cerveja do fim de semana - e da segunda e da quarta-feira também).

No tipo da inveja lá está Hélio Delgado, corpulento apesar do nome, mas de enorme coração e sensibilidade usados para sofrer: decisões dogmáticas, condutas desacertadas, enormes culpas e um olhar de penetrar qualquer alma desavisada (mesmo que que esse tipo não interesse).

Como ocorre a soma desses dois:

1º fator +bar: Hélio bebe com a naturalidade de um habituado com cerveja - grandes goles, sempre pedindo a próxima cerveja chamando o garçom de amigão e completando com um valeu após o sinal de positivo do camarada - enquanto Júlio propõe um brinde a cada pérola dos amigos e conta histórias mixurucas mas que possuem início meio e fim - sem muitos sentimentalismos, mas com muitos sentimentos.

2º fator +paquera: Júlio fica na sua observando seu entorno até alguma peça lhe chamar atenção e poder cruzar o olhar para usar sua lábia - diga-se de passagem, péssima, pois o coitado só sabe da própria vida e aquilo que sua curiosidade, que está a serviço do seu interesse, conseguiu encontrar - enquanto Hélio já demarca a mais gata, avisa a todos e começa a torpeadear a pobre garota para impedir que os amigos olhem para ela - até porque ele nunca terá a mínima chance com ela pois não criará as condições para um diálogo.

Resultado =o furo: a gata escolhida por Hélio não pára de reparar em Júlio, que nem dá cartaz para não magoar o amigo. A peça levanta de sua mesa, se direciona para Júlio e tropeça no meio do caminho provocando a gargalhada das amigas comprometidas que dividem sua mesa de bar. Hélio acredita que seja para ele. Júlio ignora a situação e vai para o banheiro. A moça, corajosamente, se declara interessada em Júlio que, preocupado com a autoestima do amigo, se finge de desentendido.

Agora, a subtração do resultado pelos dois:

Resultado =o furo: Júlio vai até a mesa onde estão seus companheiros e duvida da honra da moça de quem Hélio está interessado, que, por sua vez, reclama a Júlio que "quem desdém quer comprar".

2º fator -paquera: Júlio, orgulhoso de sua fama de pegador e sentindo-se ofendido por Hélio, levanta da mesa, anda até o canto das minas, e, como se mina de ouro fosse aquele canto, canta e encanta todas as moças da mesa sem direcionar sua voz e provoca o sentimento de inferioridade de Hélio. Este, confiante em relação ao amigo mas inseguro em relação às garotas, se faz de garoto e fica de pé na mesa delas, com copo na mão e, para entrar na conversa, conta as vezes que Júlio perdeu as penas para limpar a bunda no acampamento em Ilha Grande.

3º fator -bar: As moças, interessadas em falar mal dos próprios companheiros, ignoram Júlio e Hélio que estavam se estranhando. O estranhamento toma proporções desagradáveis - desde a saída da mesa das moças até a discussão de quantas cervejas foram tomadas. Hélio diz que a culpa é do garçom, de ter aproveitado que eles estavam bêbados, Júlio diz que a culpa é de si mesmo, por não ter retirado os rótulos desde o início. 

Moral da história: O garçom fica sem dez por cento e o bar contabiliza menos quatro cervejas que foram pedidas pelos rapazes enquanto estavam em pé na mesa das moças discutindo.