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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Trilogia: Encontre o X da Questão

Ideologia do finado Cazuza
"O meu prazer, agora é risco de vida
[...]
eu vou pagar a conta do analista pra nunca mais ter que saber quem eu sou"

A nossa trajetória sempre nos permite assumir um caminho. Mas nos pode ser um fardo. Um _X_ na nossa testa/texta que passa de "geração" para geração. O que isso quer dizer? Que eliminar um fator narrativo genealógico nos permite seguir um caminho como indivíduos. Mas que mantê-lo também nos permite ter um ponto de referência de valores - para bem ou para mal - que significa não somente nossas ações como também nossos sentimentos.

Papai e Mamãe Baseball me deram as primeiras pegadas, as primeiras rebatidas. Suas marcas continuam em mim de formas que não sei significar. Claro que permito o mistério de suas existências. Mas ainda existe a existência do agora que não me permite encaixar a todos nesse agora. Nessa agorafobia.

terça, 19 de Abril de 2011

Mito_côndria - DNA Eva no século XXI do calendário gregoriano

Eva sabe ler, escrever, cozinhar peixe, lavar calcinha no box, usar o dicionário T9 para mensagens do celular. É maio de 68, é sufrágio universal, é divórcio, é a pílula anticoncepcional. Com a mercantilização da mulher perfeita, sobraram as loucas de graça. 

Saiu coazamiga e tomou sua sangria com bastante maçã. Também, como não? O útero inchado de inutilizado pede largas doses de álcool e doce - chocolate se possível, mas com bebida nem rola, então vale uma jarra de sangria. Todo mês se esquece de sua dor uterina. Não existe essa história de calejamento para um órgão que sangra com frequência - mais que isso, sangra pelo seu sexo.

Depois de tanto cigarro se olha no espelho, não há nada de errado. A velhice vai chegar, acabou o paraíso da infância. Não consegue nem acreditar no quanto demora para as rugas, são tantos abusos consigo... mas a a garganta dói. Parece até ter nascido um pomo por conta da rigidez do esôfago. E vai... quem faz careta, com o sopro de um anjo, fica desse jeito pra sempre. Eva vive a vida de quem lhe falta.

A queda que sofreu no dia anterior lhe quebrou uma costela. Do lado direito. Deve doer mais àquele que lhe concedeu a sua lateral esquerda. Mas já não importa. Só vai ser chato limpar o vestido branco, ficou cheio de barro na queda. Melhor esperar pelo Darcy, ele sabe alguns truques para lavar roupas, se não der certo pode tingir de negro. Enquanto espera toma seu café e troca a maçã pela geléia de amora.

segunda, 28 de Fevereiro de 2011 às 21:20

Regra Três

Não sabia quem era, de onde vinha, para onde ia e quem era ela para ele querer. 


Brincou no primeiro dia como se fosse a personificação de buceta suculenta. Encarou que tudo registrado em si era nada mais que um buraco com um _X_ que o outro havia descoberto com sua vareta cega à descobrir as matas do deserto.

Havia oito anos que se picava para esterilizar o útero e encarnar o ideal do século _X_X_I - que, diga-se de passagem, é o ideal mais antigo, que o diga Jesus Cristo e sua propagação do livre-arbítrio. Sim, realizamos aquilo que a Galiléia não conseguiu: posso não ter filhos, fudendo; posso ter companheiros, descasada; posso não ter doenças, agasalhada. Que avanço! Uffa! Por isso somos cristãos.

Mas e aqueles códices da cultura que moldam músculos, olhares e timbres de voz? Como ficam eles perante tanta liberdade? E tanta liberdade de ex__pressão. Dê__pressão à eles para vê-los reagir. É o nada. É a inércia. É o excesso de liberdade que cessa na ação. Antiga cessão de desejos entre criança e adulto. Ex__cessão.

Não sabia quem era, de onde vinha, para onde ia e quem era ela para querer ele.

quarta, 30 de Novembro de 2011 às 02:40




Baseboy _X_ Matarrato

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Mariposa privilegiada

Cansada de ser como toda crosta de árvore poluída, eis que aparece uma última sobrevivente: a mariposa branca. Com todos os seus defeitos, todos os seus parasitismos, ela tem suas preferências - o musgo que cresce na sombra do caule. 

A heroína de hoje é Mari. E Mari posa na sua árvore todo dia de sol. Só para experimentar a sombra das poucas folhas que deixam passar alguns raios de luz, e que expõem o que tem de bom e o que tem de ruim. De bom, ficamos com o presente, a compaixão do olhar. De ruim, ficamos com o passado, o fardo social.

Temos que falar um pouco mais desse fardo. Não foi Mari quem escolheu nascer onde nasceu, ser quem é aos olhos do mundo. Foram as escolhas de seus pais: da forma como seu corpo se desenvolveria - comida, exercício, disciplina - até os lugares que frequentaria - possibilidades do dinheiro, bairro, moradia. Para Mari, ficou fácil fácil acreditar no inevitável, não podemos confundir com destino. Seria desatino com seu livre-arbítrio.

Como falar de livre-arbítrio se seu corpo a trai: quando quer emagrecer, vem a vontade do chocolate; quando quer acordar cedo, vem a insônia. É sua mente brincando de dialética. Testando sua testa calejada pelos tombos da infância: ela tem dois calos, parecem até chifres de diabo. E como toda Eva, se une à serpente e oferece a maçã.

Mari poderia ser sim uma mariposa marrom, mas não é. Acidentes que nos remetem à explicações do tipo... Mas o musgo é mais saboroso - na dialética. Este sim é da natureza - da sua mente. Da cor branca da pureza - do fardo social. Que deveríamos lembrar a todos quando se tornam extremamente calculistas - da compaixão do olhar. Do branco que é ausência e é totalidade, é falta e é excesso - é passado e futuro. É indizível - é presente. Tal como o ovo de Clarice Lispector. Se o branco for branco, se esgota o assunto. E a vida? Continua com suas explicações...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Do tempo

Voltou a bater.... está ouvindo? Tum, tum, tum. Na porta está lá. Quem é?

- É o destino!

Que desatino é esse? Nem te conheço. O que queres?

- Presente!

Tum, tum, tum. Isso é o presente, destino. O batimento do meu coração com olhos felizes. Um tum tum que anima o rosto, que sorri a boca, que estica olhos orientais!

- Não vai abrir?




Que engano é esse? Sempre esteve aberto! Escancarado! E por esse caminho a rajada de vento sempre passou. Nem que todos os seres humanos quisessem fechar os caminhos conseguiriam! O laço no presente é firme, é forte. E inseguro. Pulsa, pulsa, e repulsa!

Quando ouros pedi, ouros ganhei. Quando outros clamei, outros falhei. De emoções me calei, me irritei. Como flui? Como fui? Passei, passei. 

Repasso. Passa? Passado. Do préterito perfeito. Do réquiem me resta a vela, o ritual inconcluso, o ritual da vida. Que segue, sede, sede de vida. Desejo, e que assim seja!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Pagando


De todas as economias a pior é a sentimental. Filomena não sabia disso. E pagou paixão. E na espera ficou, burocracias do acaso. Não sabia onde estava seu crédito - se estava com o banco ou com o estabelecimento. São essas complexidades capitalistas que xoxam o sorriso de Filomena.

Filomena é grande mulher. Em todos os sentidos: pro alto, para os lados, para a abertura de mente e para a possibilidade de parceiros. Enfim. Filomena é a cara em oposição à coroa. Porque ainda tem juventude no olhar independente da sua idade. Isso mata Filomena do coração - literalmente.

Sente taquicardia, bolo na garganta, perna bamba, tremedeira na mão. Filomena não se adaptou à pressa que exigem dela para a execução nem à paciência que exigem para o resultado. Filo, filos, Filomena... sempre sofrendo pelos outros.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Tatuagem

"Take this". Ai. Me dói mais a costela que sua ilustração nas páginas bíblicas. O que mais posso gravar em meu corpo além do X na minha testa que atesta minha autoria? Sei que no meu corpo estão gravados meus hábitos e rituais, mas não os sinto, somente quando os repito e a sensação de lar me vem à tona.

Me machuca mais a costela que sinto do que o mar que ouço. Esse me atinge de diferentes formas. Já tive medo de engolir uma abelha, quando não passava do lacre do vinho. Lacre ou selo? Ambos seguram a segurança. Já a costela me desnorteia, me levando para leste. O mar me re-volta. Hoje sonhei com ele.

Sonhei que as máquinas que trabalham à 50m do meu ouvido soavam como cachoeiras. Em meus sonhos elas se tornaram o mar contra a rocha. E eu podia me divertir na água. Posso me divertir no caminho.

Me permito fugir à minha ética. De que vale meu sentimento se não está posto em causa? De que vale o mar sem contato com a rocha - para a areia formar? De que eu valho para mim se não existo no instante que me sinto? Mal percebo que fujo à ética para o meu prazer... retorno à ela para meu prazer no desprazer do outro.

Escuto mais um tiro suicida. Soa como garças, como zumbidos de abelhas, como máquinas rangendo. No ouvido. Na carne, nada. No meu corpo, só o passado. De quem sentia o som nas veias, as palavras na derme e a mente nos cortes. Objeto de mim, objeto do outro. O processo do sujeito continua obscuro. Não há luz. É uma ques†ão de se acostumar à escuridão. 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Frascos

Começou a conversa bem irritada, pois ainda pensava nos recalques dos outros. “E esse nariz aí, de onde saiu?”. E me contava que não entendia por que é que as pessoas querem sempre achar defeitos nos outros. Ou desculpas para o jeito que elas são. Uma outra vez tinha sido “Você usou aparelho?” E desabafava que não aguentava mais falar de si mesma ou ter que dar explicações para o jeito que era, o corpo que tinha, a vida que levava.

Se a bunda está dura demais é porque faz muita ginástica, se está mole demais é esculhambada. A unha funda e bem feita é postiça, e se não vai ao salão é largada... Magreza só pode ser bolinha e dentes brancos... capinha! E por aí vai. Não existe mérito, não existem elogios no mundo moderno. E muito menos respeito. A ordem do dia é “se recalcar e só esculhambar”. Assim sente-se melhor e não é preciso preocupar-se tanto consigo mesmo.

Ouviu o vizinho dizer que seu namorado era um caos. E ficou com um baita ponto de interrogação na cara, pois bastava ele se olhar no espelho pra ver que o caos era ele. A cara era feia e o pior, também tinha perna de alicate! E a colega do curso dois dias depois emendou: “O meu irmão perguntou o que minha amiga linda estava fazendo com um cara que era viado.” E assim seu namorado virou viado, pode?

Passando férias com uma amiga em sua terra natal a outra disparou: “eu não vou te levar pra festa porque Fulano me disse que você é atraente para qualquer homem, aí todo mundo só vai olhar pra você”. Disse que sorriu e entendeu. Fazer o quê? Pelo menos foi sincera.

Os anos se passaram e um belo dia chegou em casa, toda produzida. Era aniversário de casamento e ela caprichou no salão. Porém a única coisa que o marido reparou foi num fio de cabelo espetado no canto da boca. Irritadíssima pensou “assim não, dá um tempo!”. E saiu nas tamancas com o pobre coitado do marido inseguro, que de brocha passou a corno e teve que cantar de galo em outro canto, porque com mulher de bigode, ninguém pode.