Além de frases e dicas literárias publicadas na página do Facebook, somos apaixonados e apaixonadas pela escrita com idades, trajetórias e expectativas diferentes que, separadamente, registramos nossos devaneios. Se quiser fazer parte, envie para nós seu texto (oficinacompartilhada@gmail.com)! Os que forem escolhidos pelo grupo serão divulgados aqui na Oficina Compartilhada.

Aproveite o espaço SEM moderação!

Bem-vindos e Bem-vindas!! Saravá!

Mostrando postagens com marcador tristeza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tristeza. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Anáguas, rendas e penduricalhos


A menina acordava feliz, esperando o grande momento de ir até a horta com a avó. Como ela adorava o sítio! Maracujás nos pés crescendo ao redor da grade que separava a pequena propriedade da estrada. Nos fundos, o que ao longe parecia uma ribanceira, era na verdade uma horta completa, com legumes, verduras, muita banana e mamão. Sem falar na plantação de cana-de-açúcar, que davam bacias de gominhos geladinhos para comer depois do almoço. Delícia. De vez em quando ela dormia no quarto dos avós. Havia uma caminha de solteiro perto da janela especialmente para ela. E o closet da avó era o paraíso de penduricalhos, anáguas e rendas. Podia morar ali dentro da fantasia e a vida nunca teria que ter outro sentido a não ser inventar.

Hoje, ao olhar para trás, dificilmente lembrava-se desses momentos. Contas a pagar, projetos e decepções amorosas povoavam seus pensamentos, enterrando os que realmente faziam algum sentido. Aqueles que construíram sua personalidade e fizeram dela a pessoa doce e de coração grande que era hoje. Quando se pegou no meio da narrativa, seus olhos encheram-se de lágrimas. Era, sim, uma pessoa feliz. Muito feliz. E com a vida cheia de esperança novamente, resolveu que a partir de então faria um duelo com cada pensamento inconveniente que viesse saltar em sua cabeça: boas lembranças remotas e recentes desafiariam a tristeza até a morte.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Qual a saída?


Experimentava toda a sorte de sentimentos de confusão e abandono quando no auge da briga ele saía de casa e se instalava em um hotel qualquer, voltando para casa muitas vezes dias depois. Chorando. Transtornada, eu quebrava tudo que estava ao meu alcance. Desabando em pranto, dormia soluçando.

O pior era o dia seguinte. Não tinha muito com quem contar que fosse de extrema confiança. Se eu pedisse ajuda iria expor o problema real e ele já havia me deixado claro que aquele era o estilo de vida que queria levar, do contrário não teria se separado para estar comigo. Eu sentia falta da minha família, mas essa opção era absurda. E acabava procurando consolo no colo de amigos e amigas dele – mais tarde alguns se tornariam realmente meus bons amigos.

O relacionamento era claramente um jogo de poder e comecei a ter, com frequência, ondas de tristeza, que me valeram momentos de muito sofrimento, pois era bastante difícil disfarçar. A angústia de me tornar uma pessoa triste me invadia. Entristecida eu não teria mais nenhum valor. E foi quando me deparei com meu segundo maior medo: o de me tornar triste.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Histeria

A ameaça do desconhecido me perseguia enquanto a histeria da paixão me consumia. Loucos um pelo outro, loucos um com o outro... Eu não conseguia passar por cima das traições. Não estava procurando conforto material ou um pai para possíveis filhos. Estava a procura de cumplicidade, companheirismo, dedicação. De que adiantavam viagens fantásticas e compras luxuosas? Eu queria ter uma vida sentimental boa.

Já solteira e no meio de um turbilhão de pensamentos, muitas vezes saía de casa sem rumo. Minha cabeça caía num abismo e uma das outras assumia o controle.


-“Quem é essa?” Me pergunto no dia seguinte... Tento buscar alguma fagulha de pensamento no fundo do poço e só o que vem é a frase do pobre coitado, pensando alto - "Você é muito linda, o beijo que você me deu...".


É claro que ele não estava entendendo nada. Eu também não estava... O que uma garota como eu estaria fazendo com aquele estranho num motel barato da Praça Mauá? Provavelmente fugindo. De mim... Dele...


A primeira vez tinha classe. Acordei em bairro nobre, piano ao longe... Longe?!?!? Não!! Bem perto. Ele parou de tocar, disse que tinha café, e eu atordoada só conseguia dizer que estava atrasada - e estava mesmo, era a estréia do meu primeiro projeto solo. Quando eu voltei do banheiro ele perguntou:


- Você perdeu alguém?


- A gente vive perdendo, né?


- Ontem você estava correndo risco de vida...


- Você é um anjo... Como é que eu faço pra ir embora?


- Você está em Laranjeiras, é só descer.


Podia ser pior, e acabou sendo. Praça Mauá, sem o menor vestígio de memória. Eu acabava de perder alguém e deste jeito ia acabar me perdendo também.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O luto do segundo molar

Após ela ver seu recente ex-namorado rindo escandalosamente com outra mulher em frente a uma vitrine de bolsas, começa os desvarios:
 “Que raiva! Vou lá falar come eles. Não, vou ficar olhando. Ah, vou pra casa. Ah... 
Ela lá parada, olhando a cintura fina da outra na mão dele. Ela lá, parada, e a força da raiva se transformando na dor da tristeza. Ela, lá, confusa e parada.
Depois de um bom tempo vai para casa, ainda tresvariando:
“Por que fui ver aquilo? Pergunto até agora o porquê disso tudo? E que boca era aquela? Toda escancarada e os dentes amostra como eu nunca vi antes, nunca. Em quatro anos! Aquela cintura fina e ele agarrado a ela. Olhando aquela merda de vitrine; e como sorria, pra que abrir tanto a boca?! A menos de quinze metros de distância eu vi, e ninguém me contou. Ainda mais que eu não iria acreditar se alguém falasse; ainda mais que não ia ter ninguém pra me contar. Que porra de sorriso que ele deu em frente à vitrine de bolsas: com a boca mais descerrada que boceta de puta calejada. E eu vi: a boca tão aberta, e os dentes tão amostras que eu via o segundo molar – e obturado –, a mais de quinze metros de distância. O molar! E o segundo! Quem sabe se fosse o pré, ou até o primeiro molar... Eu me lembro de um sorriso que ele deu quando estava comigo. Eu vi o molar... o primeiro molar.
“Ninguém me contou, eu vi. Depois de todos os sorrisos, das brincadeiras idiotas, de mais sorrisos – todos de segundo molar. Depois de quase duas horas olhando aquela merda de casal.
Caminhando há meia hora para compensar as quase duas de autoflagelação que imputara a si, gastava a sola da sandália indo a pé para casa. Aos últimos passos de casa: choro, riso, choro, respectivamente, de dor, de raiva, de dor. Ela que deveria estar com as pernas indiferentes pelo passeio no shopping, agora parecia ter pernas de hipertenso que se arrastavam ao longo de toda caminhada: chorando, rindo, chorando. Os olhos que eram para estar descansados com a vitrine de bolsas – e a bolsa vermelha que ela estava pensando comprar, até o momento em que desistiu por ter gostado justamente daquela que pertencia à mulher do sorriso de segundo molar, e que a fez detestar a partir daquele momento, as bolsas vermelhas, as batas vermelhas, as echarpes vermelhas – estavam vermelhos, do choro, do riso, do choro.
Chegou pingando de suor e foi logo tirando a roupa em direção ao banheiro. Os olhos não agüentavam mais: coçavam, doíam, ardiam. Entrou no banho. As lágrimas se embolavam com a água do chuveiro que batia na face, e os olhos ardiam e coçavam e doíam. Os risos agora vinham como soluço, somente para interromper a dor, a ardência e a coceira. Enrolou-se na toalha e foi se olhar no espelho – pra quê?! Os olhos, todos aqueles: os da vitrine de bolsas; os que viram o segundo molar a mais de quinze metros de distância; os da ardência; os da coceira; os da dor; aqueles vermelhos.
Mesmo cansada diante dos fatos ocorridos procurava fazer coisas banais a fim de ocupar a cabeça. Foi por suco no copo. Derrama o líquido amarelo na toalha de mesa e no chão, o copo cai e quebra. Ela desaba num choro que desanda na exaustão do dia que culmina no sono profundo num pequeno sofá. Ao levantar no dia seguinte, caminhando até a cozinha sente dor nas pernas, avista então o suco e os pedaços de vidro espalhados pelo chão – lhe vem assim o primeiro pensamento do dia. Pensamento que inaugurava o começo de um luto que perdurará por quase um ano:
“Por que ele riu daquele jeito?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Recomeço

Dividíamos cama e sonhos. E fui chamada a escrever seu epitáfio. No momento de transformar em palavras o homem que tão bem conheci, fiz uma viagem secreta aos anos findos de amiúde convivência. Era preciso ameaçá-lo para ser tratada com decência. E o silêncio seguia por dias. Eu, chorando miúdo e enfiando bilhetes por debaixo da porta. Ele, entrando e saindo colado ao telefone celular, transbordando indiferença.

E quando finalmente tínhamos coragem de priorizar o amor, a conversa vinha carregada de autoritarismo. “Essa é a vida que eu quero ter”, afirmava Pedro com veemência. “Não me divorciei para ter uma vida normal.” E, no entanto, se negava a ser feliz, enchendo a tão escolhida vida de agora com a mesma infelicidade de outrora. Como se o sentimento de insatisfação lhe fosse necessário para continuar no controle.

Há muito tempo atrás Pedro casara-se com a insatisfação, e não havia jeito de abandoná-la mesmo trocando de mulher, de vida, de casa. A insatisfação vinha como a certeza da morte e lhe fazia infeliz em qualquer circunstância, a menos que se entorpecesse. E assim estava fadado a passar o resto de sua vida. Tendo um relacionamento íntimo e fiel com a insatisfação e com o antídoto para fazer as noites mais felizes que os dias.

Mas tudo não passava de um paliativo, e a alegria esfuziante da mulher amada o bombardeava por dentro e lhe rasgava a esportiva. De onde vinha tanto brilho, mesmo na consciência da derrota? Seremos todos derrotados pelo desconhecido, talvez amanhã mesmo. De onde viria aquela luz, aquela faísca invejável de otimismo, que ao mesmo tempo em que era sugada e absorvida por ele para seguir adiante; era banalizada e negada como o sentimento dos medíocres?

E quando o fardo se tornava pesado demais e a vida sem graça demais, fazíamos as pazes. Ele abria os braços e deixava que eu o enchesse de amor e segurança. Planejávamos viagens regadas a fantasias, mas logo adiante a sombra da insatisfação acenava cínica e estonteante, lembrando ao que era doce que aquilo não duraria muito. E o que estava delicioso e leve acabava não durando o que merecia, pois a sombra tomava conta de tudo com uma força imbatível e virava um desastre natural... Acabando com tudo o que era colorido pela frente...