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terça-feira, 3 de julho de 2012

Início do fim ou meio?

Não sabia mais por onde começar quando tentava verbalizar sobre o início do fim. Já havia desabafado tantas vezes que a história começava a embaralhar na cabeça, tamanha a confusão que vivia. Era muita providência a ser tomada para pouca atitude do outro lado. Queria escrever para clarear as ideias, todavia, teve preguiça. Não queria pensar mais nisso por enquanto. Preferiu cuidar de si sem drama. Já havia vivido o maior drama de sua vida há poucos anos atrás. Essa seria apenas mais uma experiência que a deixaria mais forte e escaldada. “Essa é a vida real”, pensou. Azar de quem não alcançasse. 

Fonte

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Posto de Observação

Quando os olhos dos outros valem mais que o seu. Quando o seu ouvido sangra com outras palavras. Quando a mão estendida é castigada. Quando embaralham seus dias para te fazer, canastrona. Quando as dúvidas são para manipulação e as certezas para o descarte. Quando se constrói a destruição todos os dias. Quando a carne sente mais que coração. Quando a presença é solicitada como sombra. Quando sobras do almoço fazem o jantar.

sábado, 10 de março de 2012

Ai

Que prazer ver cada ossinho, se esforçando por perfurar a pele. Esticando e desbotando o pigmento quase-mulato de tantas impurezas no negro-melancolia que recebe muito bem essas pontas. 
Que beleza sentir crescer músculos pequeninos por entre finas camadas de gordura saturada das recomendações do quê-não-comer. Empurrando redes de retenção que querem que tudo continue como sempre - mesmo que saibamos que o sempre é o entrevamento de nós.
Que emoção é torcer o joelho em pontilhados que veneram o tempo, que vergam o padrão e que casam com o sorriso de quem por muito passou e que passaria, ainda, por qualquer oportunidade.

Ai, partiu. Velou as pálpebras em palavras não correspondidas. Estavam no muro, estavam na pele, escritas em tinta de posse. Marcadas em seiva, choravam o meu não. Perdiam meu brilho, calavam a resistência, bandeiravam a vontade de um mim, que eu não sabia, que eu não conhecia, que eu não queria. Que esquivei.
Ai, o reflexo de meus olhos sem brilho. Calotas de um branco corroído, seco, avermelhado pelo abuso de pensar, e pensar, e tentar com um murro encaixar a última peça mal-feita do quebra-cabeça que criei.
Ai, as palavras que voltam chicoteando o meu sono. Perdido. Em voltas do couro no ar que estala quando a realidade se instala e ilumina a ponta da minha covardia, da minha fala-de-um-momento-eterno que não se traduz em tempo mas que pede pra voltar. A cada segundo.
A cada ai. Que me consome ao acordar, que enrola o pensamento em palavras-clichês do amar: te quero, te amo, te desejo, saudade.
Ai, dá dó de tantos acentos sem sentido, porquê não têm ação. Porque não querem atuar, porquê nunca quiseram... apenas elaboração de um tédio sexual por falta de perôba para abrir o nunca para qualquer um. Um olhar profundo que revela o raso do sentimento de permanência, afinal, só permanece o que é do destino. E o destino morreu com Marianne, o destino sangrou no termidor. E a oposição destino-acaso não mais fazem sentido, mesmo que um oceano impeça o toque, mesmo que correntes rompam o gelo, mesmo que a ignorância instaure o amor.

Maldita abstração que confunde o jovem coração, que inventa desafios de fé revolvendo túmulos de ancestrais. O que tenho hoje é só minha cara e ancas no espelho.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Passou?






O passado passou
E ainda assim não acabou
Estamos sempre reinventando
O passado está sempre andando

A cada ano que passa é assim
E o passado mais passado fica
Quando um novo passado buscamos
E isso nunca tem fim

sábado, 8 de outubro de 2011

Família Futebol Clube



A cidade era pequena - ou a concentração de renda que era mais forte? Havia somente um colégio, dois parques e muitos botequins. Naquele colégio se encontravam as crianças ricas e aquelas pobrinhas que tinham pais preocupados com educação.

Numa dessas pobrinhas, tinha-se uma família que se igualava a um time de futebol: dez em campo e um goleiro. O goleiro tinha suas regras próprias jogando com a mão e se colocando à disposição de todos os chutes: não negamos ser o filho o mais novo. O mais velho, ares de capitão do time, repassando as informações do técnico - eita, telefone sem fio! Os outros, cada qual com sua função para juntos batalharem pelo gol. E quem vence é a equipe: o nome da família na sobrevivência das espécies que, singelamente, chamamos de civilização.

As regras do jogo são óbvias: o homem sustenta a casa, a mulher cria os filhos, a palavra é de ordem e a palmada é autoridade. Seriam mais óbvias não fosse a globalização e os campeonatos estaduais, federais e, quiçá até onde fosse o nome da família poderiam alcançar competições internacionais! Todo esse contato apresentou obstáculos como corrupção, mentira, drogas, fofoca, menosprezo. Algo se perdeu. Quando a equipe toda falha, primeiro trocamos o técnico. Mas ainda bem que no jogo da civilização existe a morte, e é mais fácil superar a morte do técnico que a morte do jogador - lembremos do esquema da responsabilidade civil: mendigos, suicidas e ignorantes são responsabilidade coletiva, todos sofrem.

Mas que algo foi esse perdido? Foi a autoridade? Foi a voz da verdade? Porque não compreendemos que foi a regra do jogo. Quando não são respeitadas, é difícil admitir um caminho alternativo. Tolerância não é muito admitida nesses momentos de escalada social, predação animal é pouco perto dos sentimentos humanos.

Sem fugir muito da família, uma das regras para o controle de tantos jogadores é a palavra. E mais que ela, a imaginação. É por poucas palavras que se permite à imaginação fluir e se criar um mundo no qual se tem domínio..... esse é o sonho de todo técnico - e este ainda se diz técnico, burocrático, científico e objetivo... imagina quando se descobrir um sujeito! Criam-se intrigas internas ao comparar jogadores, a ir contra vontades pessoais. Tudo em nome do coletivo. Coletivo de quem? Do técnico, oras. Ou achamos que técnicos ouvem a torcida?

Pobre do técnico que não explicou o jogo e não conseguiu mais ser ouvido. O mais-velho acreditou ser o capitão do time e, mesmo perdendo o posto com o cartão vermelho, continuou na sua função de picotar a comunicação a seu favor na lateral do campo. O mais novo acreditou ser o goleiro e, depois de alguns frangos no segundo tempo se frustrou e fingiu uma contusão. O atacante passou a jogar na defesa. O lateral esquerdo ensaiou de goleiro. 

A última lembrança que se tem dessa metáfora foi quando, após o apito final e a insistência dos jogadores, o técnico furou a bola e se retirou de campo, deixando-os uns contra os outros sem perceberem o fim do jogo.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A Herança

Sem perceber, vivia a sua vida pelos outros. Pelo o que os outros haviam designado como o melhor. A saúde, o trabalho, o amor, ah!, o amor. Já não sabia muito bem quando nem como estas idéias estavam enraizadas nos seus sentimentos. Lembrou-se de quando era pequena e as mulheres da família se reuniam na mesa de madeira maciça da cozinha de bronze. As crianças não tinham fala. E as mulheres de voz grande gargalhavam e se atropelavam em gestos exagerados. Só, lhe davam o prazer da companhia na comida partilhada. E comia, e comia.

Havia anos que não começava nada de novo. Nada que realmente mudasse o seu jeito de pensar. Acordava cedo, tomava o suco de laranja, ia à pé ao trabalho - que por sorte ficava a cinco quadras de sua casa - de onde voltava para almoçar, sem gastar dinheiro com o tempero dos outros. Suas noites variavam entre filmes, livros e a companhia de um ou dois amigos que na visita levavam a garrafa de vinho: dois dedinhos eram suficientes para um riso solto. A espera de um ciclo novo estava no fardo, a mãe, debilitada por tantos anos de uso da vida. Apesar de não ter convivido com ela durante a infância ou a adolescência, foi aos 35 anos que passou a habitar com ela, nela.

O dinheiro não trazia conforto. Ainda mais depois que ele a trocou por uma moça de poucos modos, pouca rotina e pouco amor. Sabia que ele chorava pela moça, mesmo quando estavam juntos em conchinha na cama. Achava que eram suas aquelas lágrimas ardidas no lençol que dividiam. Achava também que suas lágrimas eram dele. Mas sabia, sempre foram suas. Então, a mãe doente precisava de uma enfermeira e o amor de um amor. Foi ele que deixou ela.

Não sabia que a mãe tinha uma poupança, deixada por um general que havia desviado muito dinheiro quando trabalhara no governo. Ele era casado, a mãe também, mas o pai ainda a recebia nos almoços de domingo e no fim dos seus sonhos. Já se passaram 5 anos e a mãe estava na UTI - poupando para os bolsos dos médicos.

Algumas pessoas quando morrem levam o que tem de mais valioso: um pouco de incenso, uma boneca de pano ou um anel de rubi. Quando foi que a inveja dos outros estabeleceu a herança? Ou seria um misto de cobiça do vivo que se dissipa em inveja na sua morte? Lembrou que quando o pai morreu, o novo irmão levou todos os móveis da casa enquanto ela preparava o funeral. Lhe restou um pinico de porcelana e o porta-retrato amarelado com a foto do primeiro casamento. Anos e anos de nada de novo. Era a falência.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Em resposta: Manifesto alguma beleza

Porque só há beleza naquilo que me surpreende. Porque sou cria de berço de ouro. Porque o surpreendente pode ser sujo. Porque o surpreendente pode ser tosco. Porque o surpreendente pode ser a paralisação. Porque o surpreendente é o não agir. É o não saber.

Do belo tenho os olhos esbugalhados. O sorriso mal dado. O corpo rígido. O coração acelerado. A mente sem norte. As palavras sem meio. As mãos trepidando. Não acredito em mais nada. Até porque já passou.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Nono dia: Décimo dia

Querido diário,

Hoje eu avancei o calendário. Arranquei uma folhinha a mais, bem embaixo do nariz de Jesus. Ele me olhou nos olhos, me apontou seu sagrado coração, mas era mais forte que eu. Ele iria entender. Era só comprar outro, ninguém iria notar.

Hoje marca 16 de Abril de 2011. Então hoje é 16 de Abril de 2011. Dia Nacional da Voz. De "labutar por uma nova realidade social" - diz a folhinha. Amassei o dia 15 sem nem ler. Ele não aconteceu. Ninguém sabe. Só eu.

Hoje eu fiz o mesmo de sempre. O destino estaria radiante se não fossem 16. Burlei o destino.

terça-feira, 31 de maio de 2011

"Something's changing inside you, don't you know?"

"Não há nenhum outro lugar onde eu poderia estar" pensou a pétala no curso do rio. A cada obstáculo, a água mudava seu rumo... criava um braço à esquerda, passava por baixo, mas ia adiante. E o que ficou pra trás? Acúmulos do resto passado.

"Não há nenhum outro lugar onde eu poderia estar" considerou a pétala nas voltas que dava sem chegar ao centro. Um redemoinho sem vento, a força do fundo provoca movimento. Sem tempo. Voltas, voltas. Quem sabe um ralo para o fim? Parou o fim. Melhor não pensar em que bueiro vai parar.

"Não há nenhum outro lugar onde eu poderia estar" decidiu a pétala no fluxo do ar. Voando sem rumo, escorando em obstáculos, machucando suas veias de planta. Sem rastro, sem sangue. Hematomas que seguem pelo presente e desaparecem no segundo anterior, no segundo seguinte.

"Não há nenhum outro lugar onde eu poderia estar" inscrito na árvore: amantes da paixão gravaram na natureza seu sentimento fugaz. Tentaram por fim eternizar o imemorável. Cai uma lágrima, escorre uma gota da seiva, tomba uma pétala. O que resta?