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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Mais um que vai

Banksy
Senti frio e resolvi olhar o calendário. 
17 dias. 
É o que falta para mais um ano ficar para trás. Levanto para fazer um café e noto que a coluna reclama. Dói há dias num misto de estresse e falta de exercício, mas o frio não me ajuda. Desculpa esfarrapada, eu sei. Aproveito para ligar o aquecedor e no caminho de volta para a mesa de escrevinhar não sei por que lembro-me de meu pai. Acho que é só saudade. E em seguida surge o pensamento que as pessoas têm muito medo de morrer, sim, mas têm muito mais medo de viver. Paralisadas pelo desconhecido se trancam dentro de seus corpos e não deixam a alma respirar. Tenho medo da morte, mas tenho sede de viver. Viver o máximo que puder, para além dos meus limites. Sem fronteiras. Os pensamentos confusos se embaralham. Executo várias tarefas ao mesmo tempo: leio e-mails da família, textos de amor, denúncias de falcatruas políticas, procuro aluguéis mais baratos e admiro pinturas de séculos passados. O café me dá um pouco mais de energia e a cabeça começa a funcionar melhor. Quem sabe amanhã eu não corro na praia?

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Mariposa privilegiada

Cansada de ser como toda crosta de árvore poluída, eis que aparece uma última sobrevivente: a mariposa branca. Com todos os seus defeitos, todos os seus parasitismos, ela tem suas preferências - o musgo que cresce na sombra do caule. 

A heroína de hoje é Mari. E Mari posa na sua árvore todo dia de sol. Só para experimentar a sombra das poucas folhas que deixam passar alguns raios de luz, e que expõem o que tem de bom e o que tem de ruim. De bom, ficamos com o presente, a compaixão do olhar. De ruim, ficamos com o passado, o fardo social.

Temos que falar um pouco mais desse fardo. Não foi Mari quem escolheu nascer onde nasceu, ser quem é aos olhos do mundo. Foram as escolhas de seus pais: da forma como seu corpo se desenvolveria - comida, exercício, disciplina - até os lugares que frequentaria - possibilidades do dinheiro, bairro, moradia. Para Mari, ficou fácil fácil acreditar no inevitável, não podemos confundir com destino. Seria desatino com seu livre-arbítrio.

Como falar de livre-arbítrio se seu corpo a trai: quando quer emagrecer, vem a vontade do chocolate; quando quer acordar cedo, vem a insônia. É sua mente brincando de dialética. Testando sua testa calejada pelos tombos da infância: ela tem dois calos, parecem até chifres de diabo. E como toda Eva, se une à serpente e oferece a maçã.

Mari poderia ser sim uma mariposa marrom, mas não é. Acidentes que nos remetem à explicações do tipo... Mas o musgo é mais saboroso - na dialética. Este sim é da natureza - da sua mente. Da cor branca da pureza - do fardo social. Que deveríamos lembrar a todos quando se tornam extremamente calculistas - da compaixão do olhar. Do branco que é ausência e é totalidade, é falta e é excesso - é passado e futuro. É indizível - é presente. Tal como o ovo de Clarice Lispector. Se o branco for branco, se esgota o assunto. E a vida? Continua com suas explicações...

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Pagando


De todas as economias a pior é a sentimental. Filomena não sabia disso. E pagou paixão. E na espera ficou, burocracias do acaso. Não sabia onde estava seu crédito - se estava com o banco ou com o estabelecimento. São essas complexidades capitalistas que xoxam o sorriso de Filomena.

Filomena é grande mulher. Em todos os sentidos: pro alto, para os lados, para a abertura de mente e para a possibilidade de parceiros. Enfim. Filomena é a cara em oposição à coroa. Porque ainda tem juventude no olhar independente da sua idade. Isso mata Filomena do coração - literalmente.

Sente taquicardia, bolo na garganta, perna bamba, tremedeira na mão. Filomena não se adaptou à pressa que exigem dela para a execução nem à paciência que exigem para o resultado. Filo, filos, Filomena... sempre sofrendo pelos outros.

sábado, 14 de maio de 2011

DESCULPAS DO DIA POSTERIOR

Passou por sua cabeça que "O compromisso do dia" talvez fosse adiado. "Quem sabe mais tarde?" Fala em alto e bom som para se convencer que realmente seria impossível fazê-lo. A dúvida era uma forma de restar um pingo que fosse de certeza. O compromisso era inadiável, contudo, ele já havia se lamentado nos dois minutos em que conseguira lembrar do tão importante compromisso. O esquecimento era companheiro do desencargo de consciência. Ainda sim, depois do dia veio o outro, e o esquecimento bate à porta: "Desculpe, hoje não vou abrir" fala com convicção. As desculpas não eram para si, mas o outro...os outros...É, e era pra si também. "Não vou abrir" Bate a porta com uma força incomensurável. Senta na cadeira defronte a janela, vê o esquecimento acenar pela esquadria de um outro cenário que lhe cobiça. Mais uma vez murmura desculpas, fixa o olho no papel e começa a escrever uma breve carta que começava mais ou menos assim: "Desculpe-me, por dois minutos lembrei-me de esquecer".