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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Bilíngüe

Não sou só... 
is so
É ficção
I think so

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Compensando pela semana passada


Julina

Olha a chuva
Olha a cobra
Olha a sombra
É mentira

terça-feira, 5 de julho de 2011

Mito_côndria - DNA Eva no século XXI do calendário gregoriano

Eva sabe ler, escrever, cozinhar peixe, lavar calcinha no box, usar o dicionário T9 para mensagens do celular. É maio de 68, é sufrágio universal, é divórcio, é a pílula anticoncepcional. Com a mercantilização da mulher perfeita, sobraram as loucas de graça. 

Saiu coazamiga e tomou sua sangria com bastante maçã. Também, como não? O útero inchado de inutilizado pede largas doses de álcool e doce - chocolate se possível, mas com bebida nem rola, então vale uma jarra de sangria. Todo mês se esquece de sua dor uterina. Não existe essa história de calejamento para um órgão que sangra com frequência - mais que isso, sangra pelo seu sexo.

Depois de tanto cigarro se olha no espelho, não há nada de errado. A velhice vai chegar, acabou o paraíso da infância. Não consegue nem acreditar no quanto demora para as rugas, são tantos abusos consigo... mas a a garganta dói. Parece até ter nascido um pomo por conta da rigidez do esôfago. E vai... quem faz careta, com o sopro de um anjo, fica desse jeito pra sempre. Eva vive a vida de quem lhe falta.

A queda que sofreu no dia anterior lhe quebrou uma costela. Do lado direito. Deve doer mais àquele que lhe concedeu a sua lateral esquerda. Mas já não importa. Só vai ser chato limpar o vestido branco, ficou cheio de barro. Melhor esperar pelo Darcy, ele sabe alguns truques para lavar roupas, se não der certo pode tingir de negro. Enquanto espera toma seu café e troca a maçã pela geléia de amora.

terça-feira, 31 de maio de 2011

"Something's changing inside you, don't you know?"

"Não há nenhum outro lugar onde eu poderia estar" pensou a pétala no curso do rio. A cada obstáculo, a água mudava seu rumo... criava um braço à esquerda, passava por baixo, mas ia adiante. E o que ficou pra trás? Acúmulos do resto passado.

"Não há nenhum outro lugar onde eu poderia estar" considerou a pétala nas voltas que dava sem chegar ao centro. Um redemoinho sem vento, a força do fundo provoca movimento. Sem tempo. Voltas, voltas. Quem sabe um ralo para o fim? Parou o fim. Melhor não pensar em que bueiro vai parar.

"Não há nenhum outro lugar onde eu poderia estar" decidiu a pétala no fluxo do ar. Voando sem rumo, escorando em obstáculos, machucando suas veias de planta. Sem rastro, sem sangue. Hematomas que seguem pelo presente e desaparecem no segundo anterior, no segundo seguinte.

"Não há nenhum outro lugar onde eu poderia estar" inscrito na árvore: amantes da paixão gravaram na natureza seu sentimento fugaz. Tentaram por fim eternizar o imemorável. Cai uma lágrima, escorre uma gota da seiva, tomba uma pétala. O que resta?

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ressentimento


 “Quem sabe não é ela?” Pensa ele ao ouvir as batidas na porta. Levanta-se da cadeira ainda um pouco confuso com as coisas que foram ditas. Abre a porta de forma sutil para que não espantasse seu orgulho e nem deixasse escapar o ressentimento alheio. Ele a vê, mas não a encara. A frase simplesmente saiu de sua boca. “O que houve?” A pergunta era inevitável, embora soasse diferente. Era até possível que se alguém mais estivesse lá, poderia dizer: “eu ouvi a pergunta com todas as letras e esta era: que bom que voltou”. E ainda assim, ninguém ousaria em dizer o contrário.
Do outro lado da porta, o corpo totalmente encharcado da chuva, o rosto pálido, a boca trêmula, os olhos marejados, e mesmo que marejados, não deixaram cair uma só gota, daquilo que ele chamara de ressentimento. “Não houve nada” ela respondeu sem hesitar. Mas em verdade quisera dizer: “TUDO! FILHO DA PUTA!” e continuou “Só vim buscar o que ficou... Todas as minhas coisas”.  Então responde ele com a firmeza das lágrimas que ela mantinha nos olhos: “Mas nada ficou”.
Ela estava imóvel, com os músculos totalmente contraídos do frio que a chicoteava por trás, misturado à raiva que sentia da resposta que lhe fora dada, enquanto uma palavra lhe atravessa a mente em todas as direções: “nada, nada, nada, nada”. Quando se deu conta já tinha saído com o peso de chumbo das palavras molhadas para chorar em outros ombros.
Ele ficara como se tivesse acordado ao meio dia; ao olhar o céu via estrelas apagadas, e ao ver o sol no lugar da lua, pensara estar dormindo. Mesmo assim, meio acordado e meio dormindo, sem saber, teve medo. Não tinha medo de não saber se estava desperto ou em sonhos, pensava que isso nunca tivera sentido, uma vez que o sofrimento era naquele instante; eterno instante. Assim o medo estava no céu - a lua se ausentara. Não eram férias curtas, tampouco infinitas, mas ninguém duvidaria que fossem ser duradouras. Contudo se regozijava da maneira sóbria como tinha agido na noite anterior, pensamento que alternava ora de ocupação ora de preocupação (...)

terça-feira, 26 de abril de 2011

E o passarinho!

Acordou ao lado dela. Nem se lembrava que isso era possível, fazia parte dos desafios. Dentre eles, entender o que se passava nela. Colou o ouvido para ouvir os batimentos cardíacos. Se estava acelerado - bem me quer. Se o tum tum era ritmado - não me quer. Recebeu um sorriso como resposta - mas não era essa a pergunta.

Colocou a máscara e abriu o peito. O bisturi cortante enferrujado pelo tempo lhe pediu silêncio ao oferecer atenção. Os olhos dela estavam atentos, os lábios costurados. Confusão. Com-fusão. A máscara não podia estar ali. Não havia espaço para o pasteurizado, para o limpo e esterilizado. Não havia função para o útero estéril dela. Não havia ouvidos para as palavras de uma, havia muros: ele quer, ele quer, ele quer.

Ele quer, ele cria, acontece. Acontece? Nela aconteceram palavras, nele só a melodia ritmada do tum tum. Cada qual com sua música. Assobiando no seu tempo, de acordo com o bater das asas, da mudança do vento.

"A todo mundo eu dou psiu."