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sábado, 19 de maio de 2012

Aquele Cara



Entrei no banheiro. Sentamos do lado de fora. Estava calor, então pedimos cerveja. A que estivesse mais gelada. O garçon trouxe copos e um cardápio. Era bem velho. Agradecemos com carinho automaticamente. Minha amiga frequentava o lugar e éramos sempre bem servidas. Nesse momento vimos Aquele Cara do outro lado da rua. Fazia tempo que não o via. O telefone vibrou bem na hora e foi bom para disfarçar. Deu um frio na barriga, mas logo passou. Ela me perguntou quantas vezes por dia eu pensava nele. Fiz cara de paisagem e disse lamuriosamente “Toda hora.” Ela suspirou e mudou de assunto. Realmente de nada adiantava me massacrar com sermões. Sentimentos aqui quando chegam, grudam por um bom tempo. Ela disse que Aquele Cara estava atravessando a rua enquanto eu mexia no celular. De repente senti frio. Na verdade, gelei. Uma menina na mesa ao lado levantou correndo e se pendurou no pescoço dele. Me deu enjôo. Saíram andando para o lado contrário e fiquei pensando que ele nem me enxergou. Nesse dia cheguei em casa totalmente embriagada. Chorei até cair no sono. E nunca mais pensei nAquele Cara. Nunca mais o vi também.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Boemia


Há dias minha cama cheira a cigarro,
e eu não fumo.
O sol vai,  a boemia me chama, 
e eu não durmo.
Despeço-me da cama, aceno a casa,
à noite me agarro.
Vou indo por ela, vago no escuro, 
e arrumo,
uma dama, 
e outra cama cheirando a cigarro.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Tentativa de a-cúmulo



Dentre as cinderelas e as belas adormecidas, o marco para sua história foi Chapeuzinho Vermelho. Em uma versão antiga o lobo aborda a menininha e lhe pergunta: 

"Caminho das agulhas ou dos alfinetes?" 

A menina que ouvia a história não entendeu até que esfregasse a cara na vida - dizem que devemos todos mergulhar nela, mas pelo excesso de ingenuidade é melhor esfregar mesmo.

A menina demorou a entender que nem todos pensavam igual e, pasmou, aprendiam diferente. 
Demorou a entender que consenso não é a união das vontades, e sim a união das frustrações. 
Levou um bom tempo a perceber que tempo é invenção. E que a maior invenção de todas era ela, no tempo.

A menina experimentou agulhas e alfinetes e na pele sentiu a mesma dor, por aparência optou pelos alfinetes, caíam bem com o aspecto cru da carne. Para as agulhas reservou uma caixinha, "essas são os outros". Afinal, "o que atravessa minha carne deve ser visível, ornamentando alfinetadas, o que uso nos outros deve ser sutil, a tal ponto que pareçam pequenos brilhantes" e não o veneno da sua vingança silenciada.

Mas sabe qual é o cúmulo da ingenuidade? É lidar com as vontades dos outros pensando o melhor deles. Cúmulo ou acúmulo?



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Promessas vãs ou A Falta de uma UTI Exclusiva para Doença Coronária Crônica



Cansada de tanto lero lero soltou um grito a plenos pulmões, desligou o telefone e foi chorar. Lembrou do ditado popular, “vai chorar na cama que é lugar quente” e foi. Lá ficou, exausta, até adormecer. Levantou na hora do encontro marcado.



O assunto não desviava do problema. Estava muito cansada para lutar contra a necessidade de falar sobre o que não queria. Teria que gastar as cordas vocais já exauridas de tanto viver. Toda vez que a vida lhe oferecia desafios, dava a outra face e perdia a voz.


Enquanto chorava, chovia. Era sempre assim. Nos momentos de maior inquietação o céu sempre jorrava junto com ela. Mas dessa vez não estava tão frio. Gostava mais de si mesma, palpitou.


E então rolou e rolou na cama até sentir fome. Levanto-se e preparou uma torrada. Isso daria conta, pensou. Mas não deu. O sono não vinha e ficava pensando nas palavras do guru. Estava um pouco cansada de palavras.


- “Vai acontecer o que for melhor para você.” 


Promessas quebradas são como um pequeno enfarte. Uma angústia feito angina do peito, mas que não tem terapia intensiva que dê jeito.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Clarea-me



O que fazem esses negros, meu Deus,
De sorrisos tão brancos, palmejando em alguma coisa qualquer?
Que balanço cadenciado é esse que comanda suas ancas sobressalentes?
Qual sinceridade é essa que lhes escapam o verbo?
É o anuncio da perfeição na garganta calejada dessa gente de alma ritmada, de voz suave, e tom transparente?
Rogo-Te, meu Deus: que é isso? Explica-me!, pois não compreendo.
Sê sincero, são estes os mesmos a quem esfolamos os corpos
quando o que queriam era pronunciar sua arte?
Permita que esta arte nunca cesse, Deus meu,
Pois ela ecoa em meu peito dorido um novo sopro de vida.
Confessa, inda sincero,
Clarea-me!, Te peço:
São eles que erguem as cabeças ascedendo os céus, ou és Tu que ajoelha ao chão e sopra em suas bocas, verte luz e anuncia o samba?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Briga de Egos


Nunca achei que fosse possível ser assim... ignorando tudo aquilo que já foi estabelecido. Mas por ousadia tentei e ainda tento. E me posiciono na prática no bom e velho "quem penso que sou para ....?". Sem quebrar paradigmas. Afinal, já estão estabelecidos. Contudo, é possível ser alguém que ignora os passados? O meu. O seu. O da nossa esquina?

Paralelepípedos que suportaram
saltos de fivelas, pés-negros e havaianas. 
Ponto de encontro numa padaria, 
peraí, 
agora é uma sapataria. E ontem foi uma pastelaria. 
Piso minha chineleta numa borda da calçada 
- que só calçou encontros de amantes e turistas. 
O pirulito da referência: 
Rua da Carioca.

Talvez jamais tenha havido uma carioca tão estrangeira. Com cuidado pulava da calçada para a rua, ainda não pavimentada pelo cimento, e com cuidado se lembrou quantas vezes já virou seu pé nesses bloquinhos de pedra causadores de lesões de amor. Por estar distraída, claro.



http://www.flickr.com/photos/paisagemgrafica/5041632707/

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Luto ou Melancolia?



Silvia não viveu o luto. Viveu melancolia. Não sofreu a perda do homem amado; perdeu tudo o que ele também representava e trazia para sua vida. O luto, diferente da melancolia, é respeitado pela sociedade porque é tido como passageiro, dizia sua mãe psiquiatra. É um mal necessário para nos desligarmos do que não fará mais parte de nós.

Seu amor era infinito e sem medidas. Passava dias se isolando, marcando encontros secretos com amantes do passado em seus pensamentos. Na tentativa vã de fugir do sofrimento.

- Como amei!, pensava.
- Como ainda amo! sofria...

Dizem que o amor dura para sempre. Eu ainda amo muito e ao repetir isso no escuro meus olhos ficam molhados. Por que não te esqueço? Superei, eu sei. Mas por que dia e noite você invade meus pensamentos e sonhos? Será que você pensa em mim de forma serena? Será que eu ainda habito seus sonhos? Você tem raiva? Deseja voltar atrás? Mudar o que vivemos? Não viver o que aprendemos?

E assim Silvia preenchia seus dias melancólicos, pensando e repensando seus amores passados. E quanto mais o fazia, mais se afundava na melancolia.