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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Eu. Por quê? Muitas....



É claro que nada está claro.
Eu tenho mesmo que aguentar isso?
Sou eu a responsável pelo desenrolar dos fatos?
Ou seria apenas uma indicação de desapego?
Acredito nisso
No livre arbítrio
Palavras escolhidas e usadas em dados momentos
Não quero levar isso para dentro
Me desobrigo
A partir de agora.
Para todo o sempre
Enquanto durar.

Eu.

Estou cansada do embate
Muito cansada
Sempre quis ser salva
Ninguém se lembra de mim?

Por que?

Talvez porque eu atropele?
Senso comum
Muitas vezes não
Como hoje

Algo prevaleceu e vi que estou sozinha
Que muitas vezes estou sozinha

Muitas...

E é claro que nada está claro.

Faiscador


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

The End

Doeu.

O corpo continuou com suas dimensões e dores das repetências. Quem sofreu foi a alma. Aprisionada em um corpo conformado, não pode nem derramar uma lágrima ou curvar a coluna. Há quem fale que a chuva de ontem era o céu chorando. Os mais espiritualistas diriam que era a aprovação dos deuses de Moçambique: está certo, minha filha, ainda há o reto, a retidão do caráter se cria no fluxo das águas... "água mole em pedra dura tanto bate até que fura".

Mas a alminha, ali silenciada por todos os diálogos internos, estrangulada pela postura altiva e cega pela distância, não se fez de rogada. Atacou nas horas mais sombrias, onde todos os pecados são permitidos: nos sonhos. E sonhou por cinco horas uma saga num dia cinza. 

Chorou todo o surreal da realidade - como negar o alimento da alma? 
Simulou borboletas na barriga com uma roda gigante - sensação tão típica dos encontros apaixonados.
Recebeu o apoio da torcida inimiga - o ego contra-ataca!
Até que, sabendo do despertar do pesadelo, levou a relidade ao suicídio. O fatídico encontro ocorre no alto de um prédio e termina com beijos de próximo capítulo, não fosse o fim da novela.

Como qualquer pesadelo, levanta-se às cinco da manhã no susto e sente, finalmente, a dor de existir.

sábado, 3 de novembro de 2012

Suspiro

Enrolei a última respiração
para em doce suspiro
contar a minha frustração

Vivo em uma cidade de 6 milhões de habitantes e uma concentração de renda na zona central e sul. Frequento bares e festas que as mesmas pessoas vão, se reconhecem e não se cumprimentam

Fofocas se fabricam in loco pelo neoliberalismo atuante cotidiano - um ponto a menos para o conservadorismo, um ponto a mais para a falta de ética.

Beber se tornou uma necessidade e não mais uma fuga porque fugir é trabalhar, é congelar seus sonhos justos em um sistema de demandas urgentes fúteis.

Olhar nos olhos é cada vez mais uma obrigação. Precisão de caráter mesmo quando se está a atravessar uma rua... coisas que só o senso comum obriga.

Dignidade é viver na rua, sem se dobrar à insensatez do cotidiano.

Cotidiano é acordar para tomar banho, ficar limpo para ir à rua, ir à rua para trabalhar, trabalhar para pagar a bebida e beber para dormir.

Engoli a última frase
em condolência mortífera
à dérnière catarse.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Reticente

A saudade já foi mais curtida. Uma ausência prolongada pela demora dos meios físicos de comunicação. Tudo tão rápido, ao toque de um dedo, send, e já se cumpre com a tarefa de "fiz a minha parte". Já não há mais espera, elaborações pueris de como seria. Pegamos todo o restolho de nossa angústia e ansiosamente fechamos o capítulo com um ponto final. Saudades das reticências...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Suor

Suor é o que fica depois que a alma descola do gosto amargo da saudade...


La Muse | Picasso

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Rio: cimento coberto com água do mar

Tarde lluviosa de gris cansado... Levanto o meu olhar. 

O mar de cimento se liqüefaz na fina linha do horizonte, em fumaça fina, embaçando o cotidiano com a morosidade do corpo que saiu da cama e deixou a alma em paz. Não fossem as gaivotas cruzando o cinza em círculos infinitos, sentiria que o mundo passava no mesmo tom, aglutinando dia e noite na tarde de passagem. Um intermédio entre eu e amanhã.
Faz tempo que o Rio não se deixa entreabrir, está sempre lá, escancarado, iluminado. E agora, ofendido, se recolhe em contínuo humor, um longo bocejo de quem cansou de se esforçar por debochar - só para figurar os dentes brancos e as covas que esconde na borda da boca.

É difícil suportar por muito tempo o trânsito incessante de anacronismos embaixo de um sol que brilha para todos. 
Magoou o céu o deboche do perdão. Magoou o céu a piada da loura, da gorda, do negão. 
Fere o sol as fronteiras das favelas e a alienação na drogadição.

Hoje o Rio não ri. Os olhos vão baixinho sussurrando o esforço de se manter maravilhoso nas duas últimas semanas. O horizonte se perde entre mar e nuvens. Um banho de água fria nos carros e nas suas lógicas e uma umidade calorosa nos transportes coletivos. Mas tudo isso quase calado, arredio em fazer de novo o que já vinha fazendo. Foi uma lufada de consciência na corrida do próprio rabo. Levanto o meu olhar e suspiro para dentro: tarde lluviosa de gris cansado, y sigo el caminar...




quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Amarga Vida Doce


Cruel, dura, injusta
Rápida, dolorida, indecente
Amarguinha adoça devagar
E adoçando, o amargo sente
Mas se doce puramente fosse
Nenhum de nós ficaria contente